MANIFESTO DA DIRECÇÃO: Este blogue “www.sortesdegaiola.blogspot.com”, tem como objectivo primordial só noticiar, criticar ou elogiar, as situações que mais se distingam em corridas, ou os factos verdadeiramente importantes que digam respeito ao mundo dos toiros e do toureio, dos cavalos e da equitação, com total e absoluta liberdade de imprensa dos nossos amigos cronistas colaboradores.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

W Do riso ao mundillo - Prima felicia

 Óh! Minha prima Felicia…


Tenho dois amigos - Zé Paulo Cavalheiro e António Pimentel -, que volta e meia recordam do livro “A Capital” de Eça de Queirós, uma passagem que os três achamos genial e de graça profunda e que eu resumirei para quem nunca leu o livro.

Numa casa em Coimbra vivia um grupo de estudantes intelectuais que divagavam a propósito de tudo, com citações e discussões filosóficas. No grupo havia um estudante a que os outros chamavam “Pote Sem Alma” por ser gordo e pouco inteligente, marcado por uma paixão ardente pela sua prima de nome Felícia, que acabou por o trair com um morgado dos arredores de Bragança.

O dito “Pote sem alma” ao deitar-se e mesmo várias vezes ao dia lembrava-se da prima e com pensamento carnal dizia invariavelmente, isto: “ Oh! Prima Felícia se eu te pilhasse agora aqui…”

Um certo dia um dos intelectuais sugeriu ao “Pote”, que desse aos seus lamentos uma expressão literária e nobre, e foi então que um dos presentes sugeriu que o pobre homem dissesse:

Oh! Minha prima Felícia! Nem minha nem nunca mais! Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

A partir do momento em que lhe escreveram tão bela frase, todas as noites, o Pote-sem-Alma, depois de ter arranjado a cama, com o gabão aos pés, deitava-se, entalava a roupa nos ombros, dava um ah! regalado de gozo, e com o nariz fora dos lençóis, soltando toda a voz, bramava no silêncio, para que os outros ouvissem:

Oh! minha prima Felícia! Nem minha, nem nunca mais!

Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

E mais baixinho ( para que os outros não ouvissem), torcendo-se e roncando de concupiscência: – Oh, menino, que se a pilhasse agora aqui!

Este trecho tirado de “A Capital” inspirou-me, e embora não muito a propósito, dei por mim a pensar em certos casos que se passam no “Mundillo”.

O problema de muitos dos que escrevem de toiros e não só, é dizerem o que lhes chega sem assumir o que pensam na realidade ou assumindo só em voz baixa.

Estou a imaginar alguém, s propósito duma qualquer corrida a escrever de forma patética com servilismo a propósito da falta de emoção:

Oh! Praça de toiros!... nem minha, nem nunca mais!

Desertos, desertos prados! Tristes, Tristes areais! 

E depois em voz baixa, acrescentar: “Oh se eu pilhasse aqui o responsável pelo estado do piso da arenaou o vedor da empresa…”

È evidente que hoje muitos vão aos toiros como a malta nova vai a um torneio escolar de badminton, vão porque sentem um impulso inexplicável, mas passada meia hora repetitiva, sem emoção e entorpecedora de acção, saem de lá chateados e fartos.

Até quando o público aguentará este estado de coisas?

É fundamental que as corridas tenham emoção, e que toda a gente ( sobretudo a imprensa) pugne por isso, doutra maneira, o pessoal sente-se traído e não tardará a fartar-se e a invectivar as corridas com frases duras e grosseiras ou então, o que vai dar ao mesmo, com expressões literárias e nobres do tipo:

Oh! Corridas de toiros! Nem minhas nem nunca mais! Desertos, desertos prados! Tristes, Tristes areais!”.

Mas o pior é estas situações que levam á falta de emoção, levam muita gente a deixar de ir aos toiros…

Atenção: As corridas que se arrastam durante três horas sem emoção, incomodam tanto como um exame á próstata com a duração de 180 minutos.